quarta-feira, 6 de novembro de 2013

O verde e o azul.
O verde-azul do mar com o céu
se completando.
Lindas cores brilhantes de sol.
Haja sol.
Haja só o que faz brilhar a cor de dias felizes.
Haja sol em mim.
 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Aniversário



Segundo o Houaiss a palavra aniversário vem do latim anniversarìus, e significa ‘que vem, que chega, que volta, que se faz a cada ano’.

Aos trinta e três anos de idade eu quis saber a origem da palavra aniversário.

Suas rimas são:
solitário
vocabulário, temerário, contrário,
antiquário, glossário, secretário, proprietário,
adversário, salário, rosário,
sumário.

Eu estranho rimas tão graves para uma palavra tão cheia de novidades. Eu estranho as rimas como estranho o que vem, o que chega, o que se faz a cada ano em mim, esta data.
Por que aos trinta e três anos de idade já não é qualquer rima que me faz cantar. Por que não quero forçar a rima que apoia meus cacoetes fonéticos, expressivos, vividos.
Por que uma boa rima rima. É involuntário.
E faz rimar os insolentes trinta e três anos de vida com os balões e doces da infância. Com a alegria e as aspirações da adolescência. Traz para perto o carinho da família, os amigos do peito, aqueles que carrego comigo para onde vou, que me fazem ser quem sou.

Aniversário é uma palavra impossível de rimar esteticamente. Por que cada ano que ela anuncia são versos livres
São acontecimentos, sentimentos e pessoas que vieram, foram, passaram, virão, serão, passarão...

Aos trinta e três anos de vida a rima perfeita é a vida. É o que sinto quando busco sentido. Quando busco.
Daqui eu olho para traz e sei de tudo o que passou, embora nem tudo seja digno de nota. Daqui eu vejo, com olhos de infância, com coração adolescente e com corpo de quem ainda espera o que está por vir.

Aos trinta e três anos de idade eu quis saber a origem da palavra aniversário.
Por que me interessam as origens, os destinos, me interessa quem sou. Devir.


segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Quando a ficção entra na realidade...

A noite de ontem parecia apenas uma boa noite para dormir ao som da chuva.
Ela chovia e nós dormimos aguardando o amanhã. Por volta das três da madrugada desperto com o som da chuva que ainda chovia, intermitente. Lembro o trânsito que haverá na manhã seguinte. A cidade estará um caos.
Para não perder o sono com aquele pensamento, volto para a cama e durmo.
Saímos cedo para evitar os transtornos pressentidos.
Parecíamos ter vencido as previsões pessimistas. Ter saído mais cedo foi uma ótima solução.
Parecia.
Sem saber como, sem pensar como, fomos magneticamente atraídos para uma fila gigantesca de carros.
Todos aqueles carros coladinhos um ao outro como as letras da palavra e-n-g-a-r-r-a-f-a-m-e-n-t-o.
Aquelas ruas tinham tudo de uma garrafa. O fundo e o gargalo. Ninguém passava.
A fila aumentava. Não se via dela o início e nem o fim.
Brotavam mais e mais carros: do asfalto, das árvores, das esquinas, dos postos de gasolina, das filas, dos carros, carros, carros.
Uma estranha sensação nos invadindo. Aumentamos a música, xingamos, fizemos piada.
Nós tentamos fugir. Buscamos alternativas. Burlamos o sistema. Afrontamos a lei.
Mas estávamos vencidos.
Condenados à fila de carros
Àquela ilusão que criamos
Ao progresso que aponta -> adiante,
Mas não sabe para onde vai.

Esse trânsito que criamos é uma serpente que mordeu o próprio rabo.

Quando ficção e realidade se cruzam?
  • Ficamos parados duas horas num trajeto que duraria no máximo 30 minutos, sem saber como fomos parar ali, sem saber como sair.
  • De quantos carros nós ainda precisaremos para tornar a vida nas cidades ainda mais inviável?
  • Ontem eu e o Gui fomos ao um Simpósio de Literatura Fantástica, o Fantasticon. Achamos que seria um evento acadêmico, como tantos outros que já participamos, mas qual foi a nossa surpresa ao depararmos com pessoas vestidas à moda do século 19, com um quê futurista discutindo a literatura fantástica no Brasil. Vimos que existe uma produção especialmente voltada para esse segmento que está viva e pulsante, que vai muito além do estudo acadêmico e que é encarada também como filosofia de vida. Numa cidade (ou num mundo louco) como esta em que vivemos, inserir a fantasia na vida “real” não pareceu nenhum escapismo, nenhuma loucura, talvez seja a única forma sadia de se viver.
Contiguidades




"Ó vida futura! Nós te criaremos."






quinta-feira, 29 de agosto de 2013

completamente só



não adianta multiplicar as formas de gentileza e ampliar o sorriso, dar a piada ao riso

não adianta ser bonito e conquistar apreço, sofrer por ser feio

não adianta ter crença e ideologia, amigos, família



há um minuto que todos os barulhos silenciam, os movimentos cessam no movimento

e você está diante de si mesmo



e você está completamente só

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

tristeza

eu ando triste.
triste como tudo é triste.
eu ando lutando sempre.
mas de repente dá.
e volta àquele ritmo monossilábico da vida dizendo não para tudo o que sonhamos.
é difícil esperar.
eu nunca...
nunca vou me acostumar a ter que esperar tanto.
eu me refugio em momentos do passado, sem me lembrar que naquela época passada eu também me refugiava num outro passado, como se estar lá fosse melhor.
para tentar
para parar,
pisar lento,
viver de novo o conforto de um tempo traiçoeiro que por que não existe mais parece bom.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

depois de Cristo


o que é perfeito nunca será santo, 

pois a premissa fundamental da santidade 

é a assunção da imperfeição.

***

Estão equivocados os teólogos
quando descrevem Deus em seus tratados.
Esperai por mim que vou ser apontada
como aquela que fez o irreparável.
Deus vai nascer de novo para me resgatar.
Me mata, Jonathan, com sua faca,
me livra do cativeiro do tempo.
Quero entender suas unhas,
o plano não se fixa, sua cara desaparece.
Eu amo o tempo porque amo este inferno,
este amor doloroso que precisa do corpo,
da proteção de Deus para dizer-se
nesta tarde infestada de pedestres.
Ter um corpo é como fazer poemas,
pisar margem de abismos,
eu te amo.
Seu relógio,
incongruente como meus sapatos,
uma cruz gozosa, ó Felix Culpa!

(Adélia Prado. Cicatriz.)
 


domingo, 11 de agosto de 2013

Pai

Somos todos filhos de um grande Pai.
Eu e os meus irmãos. Eu e o meu pai.
Somos todos filhos.

Meu pai é como todo pai, cheio de qualidades e defeitos.
Sofreu como sofrem os homens e sofre.
Meu pai não é perfeito.
Ele é aquilo que conseguiu ser e é tudo o que conseguir ser.
Isso não é pouco.

Meu pai não é um herói, é um guerreiro.
Guerreiro de lutas cotidianas, de vitórias corriqueiras e épicas.
Meu pai é de carne e osso, meu pai é um santo-homem.

Meu pai é um homem trabalhador, quase calado, mas que gosta de conversar.
Ele aprendeu a silenciar para se fazer ouvir
Silenciou muitas vezes sua vontade de falar para que aprendêssemos a ter voz própria.
Meu pai é um homem sincero e simples. E saber disso me basta.
Este é o homem que ele é. E essa é a minha herança.

Meu pai já foi filho de seu pai, hoje é filho de seus filhos e pai de seus netos.
Somos todos filhos de um grande Pai e isso nunca vai ter fim.
Somos todos filhos.